Monthly Archives: December 2007

“… se antes de cada ato nosso nós pudéssemos prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão” (p. 84)

Ensaio sobre a cegueira / José Saramago. — São Paulo : Companhia das Letras, 1995. — 310 p.

“É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe.” (p. 14)

“Autoritárias, paralisadoras, circulares, às vezes elípticas, as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inventar todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida.” (p. 71)

“Tão magnífica e inútil como um verso de que não nos conseguimos lembrar.” (p. 74)

[sobre leitura] “Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam apegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, [...], A não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar.” (p. 77)

“verdade possíveis” [. . .] “mentiras prováveis” (p. 91)

“A melhor maneira de fazer morrer uma rosa é abri-la à força quando ainda não passa de uma pequena promessa de botão” (p. 110)

“Os momentos não chegam nunca tarde nem cedo, chegam à hora deles, não à nossa, não temos de agradecer-lhes as coincidências, quando ocorram, entre o que tinham para propor e o que nós necessitávamos.” (p. 157)

“[...] de repente o futuro tornou-se curto” (p. 167)

“O que não quero é o que não posso, o que não posso é o que não quero.” (p. 169)

“A alma humana é um poço infectado de contradições.” (p. 170)

“A vida ama o equilíbrio, se fosse só ela a mandar faria que [. . .] a palavra, o gesto e o olhar se comportassem como gémeos inseparáveis que em todas as circunstância dissessem o mesmo.” (p. 171)

“Felizmente existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro que ensinava a cozer os barros, e o livro, finalmente convocado, aparece.” (p. 187)

“Cada pessoa é um silêncio, isso sim, um silêncio, cada uma com o seu silêncio, cada uma com o silêncio que é.” (p. 190)

“É uma estupidez deixar perder o presente só pelo medo de não vir a ganhar o futuro.” (p. 251)

“O que se sabe que irá acontecer, de uma certa maneira é como se tivesse acontecido já, as expectativas fazem mais do que anular simplesmente as surpresas, embotam as emoções, banalizam-nas, tudo o que se desejava ou temia já havia sido vivido enquanto se desejou ou temeu” (p. 260)

“A natureza humana está feita de tão estranha maneira que até os mais sinceros e espontâneos movimentos do coração se podem tornam importunos em certas circunstâncias” (p. 263)

“Mas há pior ainda, que é quando elas [as palavras] se calam de todo e se convertem num muro de silêncio compacto, diante desse muro não sabe uma pessoa o que há-de fazer.” (p. 266)

“Se não falamos somos infelizes, e se falamos desentendemo-nos.” (p. 267)

“A expressão vocabular humana não sabe ainda, e provavelmente não o saberá nunca, conhecer, reconhecer e comunicar tudo quanto é humanamente experimentável e sensível.” (p. 303)

A caverna / José Saramago. — São Paulo : Companhia das Letras, 2000. — 350 p.

“A mãe de Grenouille era uma mulher ainda jovem, nos meados dos vinte anos, ainda bonita, quase todos os dentes na boca, um resto de cabelo e que, além de gota e de sífilis e de uma leve tísica, não tinha nenhuma doença grave; esperava ainda viver muito tempo, talvez uns cinco ou dez anos [...]” (p. 9)

“[...] calando e legando o caminho do nascimento para a morte sem esse desvio pela vida [...]” (p. 25)

“A infelicidade do ser humano provém do fato de ele não querer ficar quieto no seu quarto, onde é o seu lugar.” (p. 61)

“Mas como tudo o que se tenha concluído, aperfeiçoado, começa a me aborrecer.” (p. 133)

“[...] posse e perda lhe pareceram, no entanto, bem mais desejáveis do que a pura e simples desistência de ambas.” (p. 200)

“Era como um choro contra o qual não se pode defender, como um choro retido há muito tempo e que sobe da barriga e maravilhosamente destroça, decompõe e joga fora tudo o que ofereça resistência.” (p. 245)

“Quando o sol subiu, gorducho e amarelo e com um calor de matar [...]” (p. 254)

O perfume : história de um assassino / Patrick Süskind. — 4. ed. — Rio de Janeiro : Record, 1985. — 263 p.

“Não tinha nada de cínico e sentia vergonha de mentir; a simplicidade brutal da mentira lhe repugnava; se a mentira era indispensável, pelo menos queria que ela tivesse a maior semelhança possível com a verdade.” (p. 204)

“[...] mas é sempre o que acontece na vida: imaginamos representar um papel numa determinada peça e não percebemos que os cenários foram discretamente mudados, de modo que, sem saber, devemos atuar num outro espetáculo.” (p. 224)

“[...] mas o que era pior, bem pior (disse subitamente a si mesmo), é que ele próprio não era senão uma sombra de todos esses personagens fantasmagóricos, pois esgotava todos os recursos de sua inteligência com o único objetivo de se adaptar a eles e de imitá-los, e por mais que os imitasse com um riso secreto, sem levá-los a sério, por mais que se esforçasse desse modo para ridicularizá-los secretamente (justificando assim seu esforço de adaptação), isso não mudava nada, pois uma imitação, mesmo maldosa, é sempre uma imitação; mesmo uma sombra que debocha continua sendo uma sombra, uma coisa secundária, derivada, miserável.” (p. 234)

Eduardo e Deus / Milan Kundera. — p. 199-236.
In Risíveis amores / Milan Kundera. — 23. ed. — Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985. — 236 p.

“[...] uma alegria que tem a obrigação de substituir outras alegrias torna-se rapidamente uma alegria gasta.” (p. 179)

O Dr. Havel dez anos depois / Milan Kundera. — p. 163-198.
In Risíveis amores / Milan Kundera. — 23. ed. — Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985. — 236 p.

“[...] você é como a morte, não rejeita nada.” (p. 97)

“- Justamente, não há motivo. Se houvesse, poderíamos descobrí-lo de antemão e de antemão determinar minha conduta. É precisamente nessa ausência de motivo que se encontra o fragmento de liberdade que nos é concedido, e em cuja direção devemos seguir incansavelmente, para que subsistam, nesse mundo de leis implacáveis, um pouco de desordem humana.” (p. 99)

“- Mas o que faço inconscientemente não me interessa, já que é uma coisa sobre a qual não tenho domínio, e portanto pela qual não sou responsável.” (p. 100)

“- Se fôssemos responsáveis apenas pelas coisas de que somos conscientes, os imbecis seriam absolvidos antecipadamente de todas as faltas. Acontece, meu caro Fleischman, que o homem é obrigado a saber. O homem é responsável pela própria ignorância. A ignorância é uma falta. Por isso nada pode absolver você de sua falta [...]” (p. 101)

“Isso lhe parece ilógico, mas o amor é justamente o que é ilógico”. (p. 102)

“O que ele infligia a outrem sem saber também fazia parte da esfera de sua personalidade, e quem, a não ser ele, podia ser responsável por isso? Sim, era sua culpa se Elisabeth estava apaixonada por ele; era culpado por ignorar isso; culpado por não ter prestado atenção; era culpado.” (p. 119-120)

“- Como se você não soubesse que noventa e nove por cento das palavras que pronunciamos são palavras atiradas ao vento. Você mesmo, a maior parte do tempo, não fala só por falar?” (p. 125)

“No fim do verdadeiro amor existe a morte, e só o amor no fim do qual existe a morte é amor.” (p. 126)

O simpósio / Milan Kundera. — p. 93-137.
In Risíveis amores / Milan Kundera. — 23. ed. — Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985. — 236 p.

“Apesar da alegria que proporciona a presença do ser amado, é preciso estar só para senti-la em sua plenitude.” (p. 74)

“No jogo, o homem não é livre, para o jogador o jogo é uma armadilha; se não se tratasse de um jogo, e se fossem um para o outro dois desconhecidos, a garota da carona já poderia ter-se ofendido há muito tempo e partir; mas não há meios de escapar a um jogo; o time não pode fugir do campo antes do fim; os peões do jogo de xadrez não podem sair das casas do tabuleiro, os limites do campo são intrasponíveis. A moça sabia que era obrigada a aceitar qualquer coisa pelo simples fato de que se tratava de um jogo. Ela sabia qe quanto mais longe o jogo fosse levado, mais seria um jogo e mais seria obrigada a jogar docilmente. De nada adiantaria pedir socorro à razão e avisar a alma espantada para guardar distância e não levar o jogo a sério. Justamente por ser um jogo, a alma não sentia medo, não se defendia e se abandonava ao jogo como a uma narcose*.” (p. 86)

O jogo do carona / Milan Kundera. — p. 69-91.
In Risíveis amores / Milan Kundera. — 23. ed. — Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985. — 236 p.

“Atravessamos o presente de olhos vendados, mal podemos pressentir ou adivinhar aquilo que estamos vivendo. Só mais tarde, quando a venda é retirada e examinamos o passado, percebemos o que foi vivido, compreendendo o sentido do que se passou.” (p. 35)

“Vivia como um desses excêntricos que acreditam escapar dos olhares indiscretos, protegidos por altas muralhas, porque deixam de levar em conta um pequeno detalhe: que essas muralhas são de vidro transparente.” (p. 49)

“- Qualquer vida humana dá margem a inúmeras interpretações – disse o professor. – Segundo a maneira como é apresentado, o passado de qualquer um de nós tanto pode tornar-se a biografia de um chefe de Estado adorado, quanto a biografia de um criminoso.” (p. 54)

Ninguém vai rir / Milan Kundera. — p. 31-67.
In Risíveis amores / Milan Kundera. — 23. ed. — Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985. — 236 p.

“Não tinham termo de comparação, e concluíram que se tratava de uma característica de sua classe, assim como um viajante, ao desembarcar em um porto estrangeiro para almoçar, vê representado de modo definitivo o caráter nacional no astucioso comerciante com quem por acaso divide a mesa.” (p. 49)

“Um artista não pinta seu quadro em poucas horas, mas em todos os anos de experiência que antecedem o ato de pegar os pincéis, e acontece o mesmo em relação ao fracasso.” (p. 64)

“Agora que ele estava ali e ela também, descobriu que não tinha palavras para se explicar: ficou parado como uma página escrita esperando ser lida.
- Deseja uma refeição? – perguntou ela. Havia lido a página toda, como tantas mulheres fazem num simples relance, mesmo as notas de rodapé de página de seus magros sapatos.” (p. 74)

“- O que é que isso queria dizer, então?
- Simplesmente nada – disse Charlot, e começou a cortar um pedaço de queijo em pequenos quadradinhos. – Geralmente é assim. Achamos que quer dizer alguma coisa, mas depois descobrimos que não… simplesmente não queria dizer nada. Acordamos com uma dor no peito e depois pensamos que é amor… Mas nem sempre os fatos conferem…” (p. 79)

“Se um homem ama suficientemente um lugar, não tem necessidade de possuí-lo: basta-lhe saber que o lugar está a salvo e inalterado – ou alterado apenas de um modo natural pelo tempo e pelas circunstâncias.” (p. 82)

“[...] nada era mais íntimo do que o silêncio, e ele tinha a sensação de que, caso permanecessem quietos por tempo suficiente, tudo se arranjaria entre eles.” (p. 95)

O décimo homem / Graham Greene. — Rio de Janeiro : Record, 1985. — 148 p.

“- Antes de deitar, veja bem que tudo fique em perfeita ordem, pois as coisas sofrem muito quando não são postas a dormir em seus lugares.” (p. 98)

A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada / Gabriel García Márquez. — p. 92-158.
In A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada / Gabriel García Márquez. — 5. ed. — Rio de Janeiro : Record, c1972. — 158 p.