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Category Archives: 885-31

Romance tcheco

“Não tinha nada de cínico e sentia vergonha de mentir; a simplicidade brutal da mentira lhe repugnava; se a mentira era indispensável, pelo menos queria que ela tivesse a maior semelhança possível com a verdade.” (p. 204)

“[...] mas é sempre o que acontece na vida: imaginamos representar um papel numa determinada peça e não percebemos que os cenários foram discretamente mudados, de modo que, sem saber, devemos atuar num outro espetáculo.” (p. 224)

“[...] mas o que era pior, bem pior (disse subitamente a si mesmo), é que ele próprio não era senão uma sombra de todos esses personagens fantasmagóricos, pois esgotava todos os recursos de sua inteligência com o único objetivo de se adaptar a eles e de imitá-los, e por mais que os imitasse com um riso secreto, sem levá-los a sério, por mais que se esforçasse desse modo para ridicularizá-los secretamente (justificando assim seu esforço de adaptação), isso não mudava nada, pois uma imitação, mesmo maldosa, é sempre uma imitação; mesmo uma sombra que debocha continua sendo uma sombra, uma coisa secundária, derivada, miserável.” (p. 234)

Eduardo e Deus / Milan Kundera. — p. 199-236.
In Risíveis amores / Milan Kundera. — 23. ed. — Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985. — 236 p.

“[...] uma alegria que tem a obrigação de substituir outras alegrias torna-se rapidamente uma alegria gasta.” (p. 179)

O Dr. Havel dez anos depois / Milan Kundera. — p. 163-198.
In Risíveis amores / Milan Kundera. — 23. ed. — Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985. — 236 p.

“[...] você é como a morte, não rejeita nada.” (p. 97)

“- Justamente, não há motivo. Se houvesse, poderíamos descobrí-lo de antemão e de antemão determinar minha conduta. É precisamente nessa ausência de motivo que se encontra o fragmento de liberdade que nos é concedido, e em cuja direção devemos seguir incansavelmente, para que subsistam, nesse mundo de leis implacáveis, um pouco de desordem humana.” (p. 99)

“- Mas o que faço inconscientemente não me interessa, já que é uma coisa sobre a qual não tenho domínio, e portanto pela qual não sou responsável.” (p. 100)

“- Se fôssemos responsáveis apenas pelas coisas de que somos conscientes, os imbecis seriam absolvidos antecipadamente de todas as faltas. Acontece, meu caro Fleischman, que o homem é obrigado a saber. O homem é responsável pela própria ignorância. A ignorância é uma falta. Por isso nada pode absolver você de sua falta [...]” (p. 101)

“Isso lhe parece ilógico, mas o amor é justamente o que é ilógico”. (p. 102)

“O que ele infligia a outrem sem saber também fazia parte da esfera de sua personalidade, e quem, a não ser ele, podia ser responsável por isso? Sim, era sua culpa se Elisabeth estava apaixonada por ele; era culpado por ignorar isso; culpado por não ter prestado atenção; era culpado.” (p. 119-120)

“- Como se você não soubesse que noventa e nove por cento das palavras que pronunciamos são palavras atiradas ao vento. Você mesmo, a maior parte do tempo, não fala só por falar?” (p. 125)

“No fim do verdadeiro amor existe a morte, e só o amor no fim do qual existe a morte é amor.” (p. 126)

O simpósio / Milan Kundera. — p. 93-137.
In Risíveis amores / Milan Kundera. — 23. ed. — Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985. — 236 p.

“Apesar da alegria que proporciona a presença do ser amado, é preciso estar só para senti-la em sua plenitude.” (p. 74)

“No jogo, o homem não é livre, para o jogador o jogo é uma armadilha; se não se tratasse de um jogo, e se fossem um para o outro dois desconhecidos, a garota da carona já poderia ter-se ofendido há muito tempo e partir; mas não há meios de escapar a um jogo; o time não pode fugir do campo antes do fim; os peões do jogo de xadrez não podem sair das casas do tabuleiro, os limites do campo são intrasponíveis. A moça sabia que era obrigada a aceitar qualquer coisa pelo simples fato de que se tratava de um jogo. Ela sabia qe quanto mais longe o jogo fosse levado, mais seria um jogo e mais seria obrigada a jogar docilmente. De nada adiantaria pedir socorro à razão e avisar a alma espantada para guardar distância e não levar o jogo a sério. Justamente por ser um jogo, a alma não sentia medo, não se defendia e se abandonava ao jogo como a uma narcose*.” (p. 86)

O jogo do carona / Milan Kundera. — p. 69-91.
In Risíveis amores / Milan Kundera. — 23. ed. — Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985. — 236 p.

“Atravessamos o presente de olhos vendados, mal podemos pressentir ou adivinhar aquilo que estamos vivendo. Só mais tarde, quando a venda é retirada e examinamos o passado, percebemos o que foi vivido, compreendendo o sentido do que se passou.” (p. 35)

“Vivia como um desses excêntricos que acreditam escapar dos olhares indiscretos, protegidos por altas muralhas, porque deixam de levar em conta um pequeno detalhe: que essas muralhas são de vidro transparente.” (p. 49)

“- Qualquer vida humana dá margem a inúmeras interpretações – disse o professor. – Segundo a maneira como é apresentado, o passado de qualquer um de nós tanto pode tornar-se a biografia de um chefe de Estado adorado, quanto a biografia de um criminoso.” (p. 54)

Ninguém vai rir / Milan Kundera. — p. 31-67.
In Risíveis amores / Milan Kundera. — 23. ed. — Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985. — 236 p.

“Estava certamente naquele período muito curto da vida (o período paradisíaco) em que a imaginação ainda não está saturada pela experiência, não está estragada pela rotina, em que se conhecem ou se sabem poucas coisas, de modo que o inimaginável ainda existe; e quando o inimaginável vai se tornando realidade (sem a intervenção do imaginável, sem a passarela das imagens), somos tomados pelo pânico e pela vertigem [...]” (p. 152)

Que os velhos mortos cedam lugar aos novos mortos / Milan Kundera. — p. 139-162.
In Risíveis amores / Milan Kundera. — 23. ed. — Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985. — 236 p.

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