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“É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe.” (p. 14)

“Autoritárias, paralisadoras, circulares, às vezes elípticas, as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inventar todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida.” (p. 71)

“Tão magnífica e inútil como um verso de que não nos conseguimos lembrar.” (p. 74)

[sobre leitura] “Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam apegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, […], A não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar.” (p. 77)

“verdade possíveis” [. . .] “mentiras prováveis” (p. 91)

“A melhor maneira de fazer morrer uma rosa é abri-la à força quando ainda não passa de uma pequena promessa de botão” (p. 110)

“Os momentos não chegam nunca tarde nem cedo, chegam à hora deles, não à nossa, não temos de agradecer-lhes as coincidências, quando ocorram, entre o que tinham para propor e o que nós necessitávamos.” (p. 157)

“[…] de repente o futuro tornou-se curto” (p. 167)

“O que não quero é o que não posso, o que não posso é o que não quero.” (p. 169)

“A alma humana é um poço infectado de contradições.” (p. 170)

“A vida ama o equilíbrio, se fosse só ela a mandar faria que [. . .] a palavra, o gesto e o olhar se comportassem como gémeos inseparáveis que em todas as circunstância dissessem o mesmo.” (p. 171)

“Felizmente existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro que ensinava a cozer os barros, e o livro, finalmente convocado, aparece.” (p. 187)

“Cada pessoa é um silêncio, isso sim, um silêncio, cada uma com o seu silêncio, cada uma com o silêncio que é.” (p. 190)

“É uma estupidez deixar perder o presente só pelo medo de não vir a ganhar o futuro.” (p. 251)

“O que se sabe que irá acontecer, de uma certa maneira é como se tivesse acontecido já, as expectativas fazem mais do que anular simplesmente as surpresas, embotam as emoções, banalizam-nas, tudo o que se desejava ou temia já havia sido vivido enquanto se desejou ou temeu” (p. 260)

“A natureza humana está feita de tão estranha maneira que até os mais sinceros e espontâneos movimentos do coração se podem tornam importunos em certas circunstâncias” (p. 263)

“Mas há pior ainda, que é quando elas [as palavras] se calam de todo e se convertem num muro de silêncio compacto, diante desse muro não sabe uma pessoa o que há-de fazer.” (p. 266)

“Se não falamos somos infelizes, e se falamos desentendemo-nos.” (p. 267)

“A expressão vocabular humana não sabe ainda, e provavelmente não o saberá nunca, conhecer, reconhecer e comunicar tudo quanto é humanamente experimentável e sensível.” (p. 303)

A caverna / José Saramago. — São Paulo : Companhia das Letras, 2000. — 350 p.

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