“[...] tão vitorioso que meu passo era uma folha vadia, dançando na brisa da tardezinha” (p. 81)

Sargento Garcia / Caio Fernando Abreu. — p. 76-92.
In Morangos mofados : contos / Caio Fernando Abreu. — 9. ed. — São Paulo : Companhia das Letras, 1995.

“Pensando melhor, continuavam sem saber, fazia muitos anos, se a realidade seria mesmo meio mágica ou apenas levemente paranóica, dependendo da disposição de cada um para escarafunchar a ferida.” (p. 45)

“Isso o remetia a outras feridas mais antigas, nem mais nem menos dolorosas, porque a memória da dor da feridantiga amenizou-se, compreende? Menos pela cicatriz deixada, uma feridantiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva.” (p. 45-46)

“[...] mesmo olhando-se vezenquando nos olhos há anos empapuçados de álcool e drogas, não se atreviam a verbalizar morcegos. Ou não é que não se atrevessem: os morcegos talvez fossem incomunicáveis, pois em não sendo verbalizados, e portanto compartilhados, cada um suspeitava que fossem estritamente pessoais & intransferíveis, compreende? O que quero finalmente dizer é que não verbalizando os morcegos, os morcegos não existiam, passando a ser o que não era: uma metáfora de si mesmos. (p. 47-48 )

Os companheiros : uma história embaçada / Caio Fernando Abreu. — p. 42-49.
In Morangos mofados : contos / Caio Fernando Abreu. — 9. ed. — São Paulo : Companhia das Letras, 1995.

 ”– Você reparou como a feiúra das pessoas na rua, pessoas humildes, operários indo para o trabalho, burocratas, donas de casa, e empregadas domésticas, exaspera-se e se agrava com aspectos quase fantásticos no interior dos ônibus?” (p. 140)

O possesso / Jean Lorrain. — p.  138-142.
In Os melhores contos de loucura / Flávio Moreira da Costa (org. ) ; tradução de Celina Portocarrero… [et al.] — Rio de Janeiro : Ediouro, 2007. –378 p.

“Pois bem: basta que duas pessoas sorvem os deleites da vida de maneira anormal para que se compreendam tanto mais intimamente quanto mais extravagante for a obtenção do gozo. Elas se unirão em seguida, excluindo qualquer outra paixão, para se isolar na felicidade alucinada de um paraíso artificial.” (p. 130)

O inferno artificial / Horacio Quiroga. — p. 125-132.
In Os melhores contos de loucura / Flávio Moreira da Costa (org. ) ; tradução de Celina Portocarrero… [et al.] — Rio de Janeiro : Ediouro, 2007. –378 p.

“Dava-se conta de que os momentos que passavam eram como um tempo irrecuperável, uma felicidade irrecuperável, pois naqueles últimos segundos ela poderia se virar e ver o rosto que ela jamais veria de novo.” (p. 41)

“A felicidade era um pouco como voar, pensou, como ser uma pipa. Dependia de quanto barbante a gente dava…” (p. 95)

“E para que se preocupar com a definição de tudo?” (p. 101)

“[...] e o fato de não fazê-lo deixou-a tensa e alerta, encheu-a de uma exaltação reprimida, porém temerária.” (p. 216)

“Therese já lera sobre o prazer especial que as pessoas têm ao ver que a pessoa que amam também exerce atração sobre outras. Ela simplesmente não era assim.” (p. 218 )

“Se sentia alguma vez o ímpeto de contar a Carol, as palavras se dissolviam antes de ela começar, de medo e de sua habitual desconfiança das próprias reações, da ansiedade de que suas reações não fossem iguais às de ninguém e de que portanto nem Carol fosse capaz de compreendê-las.” (p. 218-219)

“[...] aquela reação impetuosa em ambas, como se seus corpos fossem feitos de substâncias que, quando combinadas, criavam inevitavelmente o desejo.” (p. 224)

“[...] saboreando a situação esquecida de estar sozinha. Era apenas um estado material. Na verdade, não se sentia sozinha em absoluto.” (p. 244)

“As pessoas ainda me perguntam de você. O que você espera que eu diga a elas? Pretendo contar-lhes a verdade. Só assim consigo livrar-me dela — não agüento mais carregá-la comigo.” (p. 253)

“Porém a questão mais importante não foi mencionada nem pensada por ninguém — que o ajuste entre dois homens ou duas mulheres pode ser absoluto e perfeito, de um modo que jamais pode ser entre a mulher e o homem, e que talvez certas pessoas desejem exatamente isto, enquanto outras desejem aquela coisa mais incerta e movediça que acontece entre os homens e as mulheres. Foi dito ontem, ou pelo menos insinuado, que meu rumo atual me levaria às profundezas da depravação e da degradação humana. Sim, eu me rebaixei bastante desde que eles te tiraram de mim. É verdade, se eu tivesse que continuar assim, espionada, atacada, jamais possuindo alguém por um tempo suficiente, de modo que o conhecimento de outra pessoa acaba se tornando algo superficial — isso sim é uma degeneração. Ou viver ao contrário do que se é, isso sim é degradante por definição.” (p. 261)

Carol / Patricia Highsmith ; tradução de Roberto Grey. — Porto Alegre : L&PM, 2006. — 296 p. — (Coleção L&PM Pocket ; v. 524). — Título original: The price of salt.

“Meus livros (que não sabem que eu existo)
São tão parte de mim como este rosto
De fontes grises e de grises olhos
Que inutilmente busco nos cristais
E que com a mão côncava percorro.
Não sem algum lógica amargura
Penso que as palavras essenciais
Que me expressam se encontram nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
Vão me dizer para sempre.

Meus livros / Jorge Luis Borges. — p. 123
In Obras completas : volume 3 : 1975-1985 / Jorge Luis Borges. — São Paulo : Globo, 1999 — 576 p. — Publicado originalmente em: A rosa profunda.

“Entre os livros da biblioteca havia um, escrito em arábico, que um soldade adquiriu por algumas moedas no Alcaná de Toledo e que os orientalistas ignoram, exceto na versão castelhana. Esse livro era mágico e registrava, de maneira profética, os feitos e palavras de um homem desde a idade de cinqüenta anos até o dia de sua morte, que ocorreria em 1614.
Ninguém encontrará aquele livro, que pereceu na famosa conflagração ordenada por um padre e um barbeiro, amigo pessoal do soldado, como se lê no sexto capítulo.
O homem teve o livro nas mãos e nunca o leu, porém cumpriu minusciosamente o destino que o árabe sonhara e continuará a cumpri-lo, sempre, pois sua aventura já é parte da vasta memória dos povos.
Será esta fantasia mais estranha que a predestinação do Islã que postula um Deus, ou que o livre-arbítrio, que nos dá a terrível potestade de escolher o inferno?”

O ato do livro / Jorge Luis Borges. — p. 332
In Obras completas : volume 3 : 1975-1985 / Jorge Luis Borges. — São Paulo : Globo, 1999 — 576 p. — Publicado originalmente em: A cifra.

“[...]
- Eu não tenho tempo de ler livro.
- Claro que tem. Agora, por exemplo. Por que você não tá lendo?
- Questão de princípios. Como eu não transo em biblioteca, eu não leio livro na cama.”

Os melhores momentos de “Os Normais” / Alexandre Machado, Fernanda Young. — Rio de Janeiro : Objetiva, 2002. — 158 p. — Trecho retirado da orelha.

“… se antes de cada ato nosso nós pudéssemos prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão” (p. 84)

Ensaio sobre a cegueira / José Saramago. — São Paulo : Companhia das Letras, 1995. — 310 p.

“É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe.” (p. 14)

“Autoritárias, paralisadoras, circulares, às vezes elípticas, as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inventar todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida.” (p. 71)

“Tão magnífica e inútil como um verso de que não nos conseguimos lembrar.” (p. 74)

[sobre leitura] “Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam apegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, [...], A não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar.” (p. 77)

“verdade possíveis” [. . .] “mentiras prováveis” (p. 91)

“A melhor maneira de fazer morrer uma rosa é abri-la à força quando ainda não passa de uma pequena promessa de botão” (p. 110)

“Os momentos não chegam nunca tarde nem cedo, chegam à hora deles, não à nossa, não temos de agradecer-lhes as coincidências, quando ocorram, entre o que tinham para propor e o que nós necessitávamos.” (p. 157)

“[...] de repente o futuro tornou-se curto” (p. 167)

“O que não quero é o que não posso, o que não posso é o que não quero.” (p. 169)

“A alma humana é um poço infectado de contradições.” (p. 170)

“A vida ama o equilíbrio, se fosse só ela a mandar faria que [. . .] a palavra, o gesto e o olhar se comportassem como gémeos inseparáveis que em todas as circunstância dissessem o mesmo.” (p. 171)

“Felizmente existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro que ensinava a cozer os barros, e o livro, finalmente convocado, aparece.” (p. 187)

“Cada pessoa é um silêncio, isso sim, um silêncio, cada uma com o seu silêncio, cada uma com o silêncio que é.” (p. 190)

“É uma estupidez deixar perder o presente só pelo medo de não vir a ganhar o futuro.” (p. 251)

“O que se sabe que irá acontecer, de uma certa maneira é como se tivesse acontecido já, as expectativas fazem mais do que anular simplesmente as surpresas, embotam as emoções, banalizam-nas, tudo o que se desejava ou temia já havia sido vivido enquanto se desejou ou temeu” (p. 260)

“A natureza humana está feita de tão estranha maneira que até os mais sinceros e espontâneos movimentos do coração se podem tornam importunos em certas circunstâncias” (p. 263)

“Mas há pior ainda, que é quando elas [as palavras] se calam de todo e se convertem num muro de silêncio compacto, diante desse muro não sabe uma pessoa o que há-de fazer.” (p. 266)

“Se não falamos somos infelizes, e se falamos desentendemo-nos.” (p. 267)

“A expressão vocabular humana não sabe ainda, e provavelmente não o saberá nunca, conhecer, reconhecer e comunicar tudo quanto é humanamente experimentável e sensível.” (p. 303)

A caverna / José Saramago. — São Paulo : Companhia das Letras, 2000. — 350 p.